A tradução das obras de Pessoa em pauta na Fliporto 2015

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Dono de uma voz grave e semblante sisudo, Richard Zenith desmontou a esfinge ao seu redor mostrando ser um dileto estudioso e investigador da obra e figura de Fernando Pessoa, com relativo conhecimento acumulado ao longo de décadas ao serviço disciplinado e metódico de uma clara paixão. Com lucidez, Zenith mostrou que não é apenas um editor da obra pessoana, muito longe de ser um acadêmicos em torno dos heterônimos, mas um grande conhecedor do poeta luso. Acompanhado pelo israelense Ioram Melcer e Arnaldo Saraiva, os três falaram daquilo que é mais precioso àqueles que procuram levar para uma nova língua uma obra poética: a fidelidade à língua original da obra, a condição poliglota em Fernando Pessoa e o desafio de adaptar os textos para outros idiomas.

Do outro lado do palco do Congresso Literário, Arnaldo Saraiva falou da experiência de Pessoa tradutor. “Ele não era rígido, como não deve ser qualquer tradutor. Porque rigidez é estupidez, rígidos são estúpidos. Qualquer radical ou fanático é rígido. E quem trabalha como tradutor tem que estar aberto às outras línguas e a outras culturas. O português de Pessoa é límpido, tanto que todo brasileiro pode lê-lo sem problemas lexicais. O português dele é um português clássico. E o tradutor Pessoa também foi um tradutor de classe”, declarou Saraiva, investigador literário fundador do Centro de Estudos Pessoanos. Perguntado por Ioram Melcer sobre qual seria de fato a língua de Fernando Pessoa, ele foi direto: “Creio que a lÍngua materna de Pessoa foi, claramente, o português. Ele hesitou em ser escritor em inglês, uma lÍngua que já tinha projeção internacional, e optou pelo português, para que o idioma alcançasse projeção nacional também.”

O maior tradutor de Fernando Pessoa para o inglês, Zenith, foi o responsável por levar Pessoa ao mundo anglo-saxão como bem pontuou Ioram Melcer: “o mundo anglo-saxão não conheceria a literatura lusófona como a conhece hoje em dia se não fosse o trabalho de Zenith.” Este último deve ao Brasil seu amor à língua: “Devo ao Brasil a minha relação com a língua portuguesa. Aprendi português em Florianópolis, onde vivi durante três anos. E lá que li Pessoa”, recorda. Em relação ao domínio do idioma, Zenith é um homem pacato. “Não gosto dessa expressão de dominar uma língua, porque são as línguas que nos penetram e dominam. Para ter uma boa tradução é fundamental que sejamos possuídos pelo texto.”
 

Richard Zenith, Ioram Melcer,  Arnaldo Saraiva

Richard Zenith, Ioram Melcer, Arnaldo Saraiva

 

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