FERNANDO PESSOA E O QUINTO IMPÉRIO PORTUGUÊS

0

O conjunto da obra do poeta português é o símbolo máximo de uma existência em busca, apenas, da possibilidade

Em uma das sessões mais emocionantes da Fliporto 2015, Alfredo Antunes e Paulo José Miranda falaram sobre a saudade, o tempo e o amor em Fernando Pessoa. Acadêmico, um dos maiores pesquisadores e estudiosos de Fernando Pessoa, Antunes iniciou sua fala, declamando a primeira estrofe de “Tabacaria”:

“Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

E a partir desse poema, Antunes e Paulo Miranda falaram sobre o centro temático da obra de Fernando Pessoa, a saudade. “Pessoa tem saudade do passado, do presente e do futuro. Uma saudade nostálgica de algo que ele não foi, de algo que jamais conseguirá ser. Sua obra inteira está impregnada com esse sentimento, essa ligação extensa com a”possibilidade”, disse Alfredo Antunes.

Os dois autores falaram ainda sobre a saudade de Fernando Pessoa à suas três grandes perdas: a primeira residência, ao pai e à mãe. “Pessoa viveu em endereços diferentes, mas jamais falou deles, apenas da sua primeira casa, um bairro cultural no Centro de Lisboa”, comentou Antunes.

Outro tema de relevo abordado pelos autores foi o tempo em Fernando Pessoa. “Ele usava seus heterônimos como uma forma de desapegar de sua própria existência, ressaltando que tudo na vida é passível de escolha, até a morte. A única coisa do qual não teve escolha foi nascer. E disso ele decidiu viver uma vida que não é do que viver aquela que nos deram”, analisou Antunes.

A consciência de Pessoa

dentro de sua obra estão intrísecamente relacionada ainda ao entendimento do tempo, de um sujeito puro que se propõe a fazer uma reflexão transcedental do tempo e da existência, aproximando-se de Hedeigger. “ A consciência implica uma temporalidade irredutível ao tempo físico, estritamente métrico ou cronológico. Esta temática torna-se o cerne da sua obra quando começa a relacionar-se ao budismo”, finaliza Antunes.

Na amálgama da obra de Pessoa, está a profecia de um futuro que ele aborda com nostalgia e vontade de construir, o Quinto Império Português. “Assim como Bandarra que previu um quinto império político e Padre Antônio Vieira um império religioso, toda obra de Pessoa simboliza uma verdade profética, escatológica e não concretizada de um quinto império português, cultural”, finalizou Antunes.

 Destaque Paulo José Miranda //Foto Danilo Galvão //

Share.

Deixe seu comentário