FLIPORTO 2015: QUALIDADE E SUPERAÇÃO

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Num balanço sobre a Fliporto 2015 é inevitável uma referência à palavra talvez mais citada em todo o Brasil: crise. Como nosso trabalho é a literatura, e escrever consiste em lembrar e fazer lembrar, é importante que as pessoas recordem que a palavra crise vem de um verbo grego que significa separar, decidir. E que daquele mesmo verbo provêm critério e crítica. Assim, em tempos de crise, quem faz cultura se depara com uma situação que exige o máximo de critério e de senso crítico, que deve nos impelir ainda mais ao bom senso e ao bom gosto.

Assim, as palavras-chave da Fliporto 2015 foram: decisão, superação e qualidade – a principal. A escolha cuidadosa de cada convidado e dos temas, a organização, o trabalho, o esforço da equipe, o apoio firme dos patrocinadores, dos meios de comunicação e, principalmente, do público, sempre, tornou mais do que possível cada um dos diálogos da Fliporto em Olinda: mantendo o mesmo nível alto que vem sendo a característica de uma das maiores e melhores festas literárias do Brasil: a de Pernambuco.

Até nos aspectos mais simbólicos podemos dizer da vitória e da felicidade da festa: o homenageado Fernando Pessoa, e seu país, Portugal, são um belíssimo exemplo do que pode fazer um homem de cotidiano tão humilde: ser o poeta máximo, levar a língua portuguesa a culminâncias, a ponto de na França o seu poema Tabacaria ser eleito como o melhor de todos no Ocidente. A capacidade dos portugueses, tendo um oceano inteiro de adversidades, levou ao encontro com o Brasil. No dia 12 de novembro de 2015, a sobrinha do poeta provou que coisas que parecem verdadeiramente milagrosas podem ser levadas à prática: viajou de Lisboa ao Recife para falar na Fliporto sobre Fernando Pessoa: imensa homenagem a ele, 80 anos depois de sua morte, feita por ela, com 90 anos de vida.

De pequenos e grandes milagres se faz a vida. E a literatura busca recriar isso tudo em linguagem. Uma festa literária proclama e celebra tudo isso. Num encontro de autores e leitores. Vários desses momentos verdadeiramente comoventes foram possíveis no congresso literário da Fliporto 2015: um dos maiores cantores e compositores de Portugal, Sérgio Godinho, improvisou, e cantou à capella, um poema de Camões musicado por Zeca Afonso, em homenagem à fraternidade universal, à mestiçagem, à tolerância, como uma referência direta aos tristíssimos acontecimentos de Paris, 13/11. O tema esteve presente de um modo ou de outro, em vários painéis. A literatura reflete a vida, e se reflete no tempo. Nunca é uma ilha deserta. Suas águas são as do sonho, e as da realidade.

Uma festa literária num contexto difícil deve ser mais do que uma celebração, ou uma resistência. A ação. A existência. A insistência. A afirmação do prazer de ler, de educar, de desfrutar com a inteligência, de continuar pensando, criticando, realizando, aprendendo. Lições de História, como as dadas por Javier Cercas, Eric Nepomuceno e Luize Valente; de língua e cultura portuguesa, como as de Miguel Sousa Tavares, Mario Prata e Pasquale Cipro Neto. De personalidade e linguagem, como as de Sérgio Godinho, Ioram Melcer.

Permeando tudo isso, ou como o grande tecido inconsútil de tudo isso, a obra e a vida de Fernando Pessoa. Alguns dos seus maiores intérpretes brindaram o público da Fliporto com reflexões inesquecíveis: dos Estados Unidos veio Richard Zenith, provavelmente o seu melhor tradutor para o inglês, na atualidade, e que está a preparar uma nova biografia do poeta. De Portugal vieram Arnaldo Saraiva, Paulo José Miranda, e do Recife: Alfredo Antunes. Sem esquecer das novas gerações, com novas releituras de Pessoa, como as proporcionadas pelo talento de André Morgado e Alexandre Leoni. Com menos de trinta anos, eles foram os campeões de autógrafos, e a partir da Fliporto iniciaram uma trajetória vitoriosa da divulgação de sua novela gráfica. Foi em Olinda, na Fliporto, que se conheceram os jovens autores que fizeram todo o trabalho pela internet. Esses e outros encontros tiveram destaque na imprensa brasileira e europeia.

Mas, além da HQ, diversos outros autores escolheram a Fliporto para fazer a estreia dos seus livros novos, como Javier Cercas e Alfredo Antunes, além de Arnaldo Saraiva, que mais do que lançou e autografou um livro: escreveu-o especialmente para lançar na Fliporto: uma cronologia minuciosa sobre a recepção de Fernando Pessoa no Brasil.

Portanto, em 2015, mais uma vez, a Fliporto foi uma prova de que vale a pena fazer cultura, insistir, investir. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Quem isto escreveu soube mais do que viver e superar crises, soube viver e dar sentido à vida, e fez disto um sinônimo de (alta) literatura.

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Acesse e assista aos vídeos de todas os painéis do Congresso Literário. Clique aqui!

painei

 

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