Recentemente o presidente Lula participou, no Recife, de uma cerimônia pelo Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A Sinagoga Kahal Zur Israel – a primeira das Américas, situada à Rua do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus – ficou lotada para assistir a uma bela cerimônia religiosa, incluindo apresentação artística com violino e leituras poéticas. Alguns ali (os mais novos) talvez não soubessem ser de autoria de um cristão-novo português chamado Bento Teixeira o que para muitos é a primeira obra poética do Brasil: Prosopopeia. Outros, por ventura, desconhecem que há ainda os que defendem ser do intelectual judeu português Isaac Aboab da Fonseca as primeiras poesias escritas em nossas terras. O rabino Aboab da Fonseca foi o primeiro religioso judeu nas Américas, enviado ao Recife para chefiar a então crescente comunidade judaica, quando da tomada da cidade pelos holandeses.
Independente de qual corrente de historiadores esteja certa, fica evidenciado que a semente da herança cultural judaica no mundo ibero-americano foi plantada em solo pernambucano. Pernambuco é no Brasil o lugar que mais cedo definiu uma clara vocação para o cosmopolitismo. O que primeiro organizou-se em torno da cultura, não só da cana-de-açúcar, mas do urbanismo, das artes, das ciências. Foi especificamente no século 17 que essa característica se evidenciou, mais precisamente nos anos que vão de 1630 a 1654. O famoso tempo dos flamengos ou, mais popularmente, dos holandeses, estudado exaustivamente pelo historiador José Antônio Gonsalves de Mello.
Os judeus constituíram-se em uma importante presença dessa época, que se tornou há muito uma das mais analisadas do ponto de vista histórico da cultura pernambucana. Gonsalves de Mello também fez sobre eles um elaborado estudo e diversos outros trabalhos foram publicados abordando a temática dos judeus que vieram para Pernambuco nesse período. O “povo de Israel” deixou traços que não podem ser apagados da história e da imaginação pernambucanas, entre eles a edificação da sinagoga na Rua do Bom Jesus e a aventura dos que saíram daqui para a outra América onde ajudaram a fundar a cidade que veio a ser Nova Iorque.
Na verdade, os judeus estão em Pernambuco desde o início da colonização. A partir da chegada de Pedro Álvares Cabral em terras brasileiras, Olinda, sede da então capitania hereditária, e Recife foram destinos para vários judeus e cristãos novos (judeus convertidos ao cristianismo por medo da Inquisição) vindos da Península Ibérica (Portugal e Espanha). Graças à influência judaica, o povo pernambucano aprendeu a cultivar, com igual intensidade, o gosto pelo cosmopolitismo e por suas raízes mais profundas, instaurando um forte orgulho regional, tão peculiar nesse efervescente pedaço do Brasil. Além disso, reconhecidamente exímios comerciantes, os judeus do Recife foram responsáveis diretos pela consolidação da cidade como importante polo comercial no Nordeste do país.
Os judeus deram uma contribuição riquíssima, em variados aspectos, sobretudo à cultura de Pernambuco. É inteiramente reconhecida a inseparável influência deles no tocante às identidades ibéricas e transnacionais do Estado. Aliás, se fizermos um exercício de trocadilhos, podemos até observar que o Estado foi o berço de uma América Ladina, dentro da América Latina, uma vez que o Ladino é um dialeto judeu-hispânico, o idioma dos sefaraditas, os judeus de Sefarad, nome hebraico da Península Ibérica. O Ladino tornou-se uma língua caracteristicamente judaica apenas depois da expulsão dos judeus da Espanha – até então era apenas a língua da província onde moravam. Quando os judeus foram expulsos da Espanha e de Portugal, perdeu-se o contato com o desenvolvimento posterior da língua, mas continuaram a usá-la em comunidades formadas nos países para os quais emigraram.
A natural consideração de todos esses fatos levou a Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Fliporto) a definir o tema para o evento este ano: ‘A literatura judaica e o mundo ibero-americano’. Nesse contexto, a escritora Clarice Lispector foi escolhida para ser a homenageada da VI Fliporto. Além de ter uma obra literária digna de todas as homenagens, Clarice era de família judia de origem ucraniana e viveu parte da infância no Recife (1925-1934), residindo em um casarão da Praça Maciel Pinheiro, tradicional reduto judeu no centro da cidade. Em sua diáspora, a nação judaica legou ao Brasil um dos pontos mais altos de sua Literatura.