O MELHOR DE FERNANDO PESSOA

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 Entrevista exclusiva de Ioram Melcer 

Ioram Melcer (1963) é um escritor, tradutor e linguísta. Nascido em Israel, viveu parte de sua infância na América Latina. Autor de cinco livros publicados (Neve na Albânia, Existe Lisboa?, Hibát Zión, Pelé: um deus de carne e osso e O homem que foi enterrado duas vezes). Como tradutor, traduziu 90 obras do espanhol, do português, do francês, do italiano, do inglês e do catalão, entre as quais se destacam livros de Fernando Pessoa, Julio Cortázar, Salman Rushdie, Mario Vargas Llosa e de outros. Recebeu vários prêmios importantes, editou uma antologia de contos israelenses publicada pelo Fondo de Cultura Económica, no México, Islas entre nosotros. Atualmente, acaba de completar uma antologia de poesia lusófona traduzida ao hebraico, com 365 poemas, um livro que dialoga com a obra de Borges, e um romance. Nesta entrevista a Mario Helio (coordenador de programação literária da Fliporto), ele fala do fascínio pelo poeta de Mensagem.

Pergunta: Como tu descobriste a obra de Fernando Pessoa e começaste a lê-lo?

No ano de 1993 foi publicada uma antologia de Pessoa em hebraico. Mesmo não sendo a melhor tradução, me abriu as portas do seu mundo, que me fascinou. Comecei a ler tudo o que consegui de Pessoa e seus heterônimos. Pode-se dizer até que aprofundei meu conhecimento da língua portuguesa para lê-lo. E foi assim que minha vida passou a se ligar a esse homem, a esse personagem e seus personagens. Em 1996 viajei pela primeira vez a Lisboa, impulsionado por Pessoa. Saí de Paris, onde havia visto o filme Lisbon Story, de Wim Wenders num pequeno cinema do 6º. Arrondissement. Quanto terminou a sessão e acenderam-se as luzes, notei que no meu assento havia uma nota de 50 escudos. Um sinal místico? Por que não? Logo andei por suas ruas e li sobre ele e não deixei mais de fazê-lo desde então.

 

Pergunta: O que representa traduzir Pessoa? Há dificuldades especiais, se o comparas com outros autores da língua portuguesa que também traduzes?

Comparando-o, não é mais difícil Pessoa que Sophia Breyner de Mello, Miguel Torga ou Cecilia Meireles, citando três que têm muitas afinidades com Pessoa. Mas Pessoa em si mesmo representa um desafio: e é que o tradutor deve formar, além do texto traduzido, um mundo lexical de Pessoa, isto é, ter uma lista compacta e clara de estados de espírito e de situações existenciais, porque é muito consistente em seus termos, e isso representa uma exigência ao tradutor. Além disso, deve-se recordar que Pessoa usava termos que hoje não são usuais, como, por exemplo, “vulgar”, ou “psicologia” em seu sentido etimológico e não como nós usamos. Quer dizer: vulgar significa “do vulgo”, e “psicologia” é o saber da “psique”. É algo essencial levar em conta no momento de traduzir. Quem traduz Pessoa para línguas europeias pode, em muitos casos, não se vê obrigado a enfrentar este aspecto, mas quando se trata de uma língua como o hebraico, que nada tem a ver com o português nem com as línguas europeias ou indo-europeias, é um tema principal.

 

Pergunta: Consegues escolher os versos ou frases de Pessoa que, no teu gosto ou opinião pessoal, são de maior força ou energia?

Reposta: Imagino que nossos leitores esperam alguma citação sonora, bela, contundente, do grande poema da língua portuguesa, algo existencial absolutamente comovedor. Mas, para mim, tenho que cometer a terrível e necessária vulgaridade de escolher a frase que é a mais forte de Pessoa, uma frase completa, profunda, absoluta, única, excelente, que o define numa palavra, porque é o que contém, uma palavra, é do Livro do Desassossego, que tive o prazer de traduzir para o hebraico. E é: “sou-me”.  Se prestamos atenção nessa frase-palavra, se nos deixamos levar pelo que é e pelo que diz, vemos que nos absorve, e vemos que é todo Pessoa. O homem que foi ele mesmo até o máximo, o homem que foi o objeto de si mesmo como sujeito, o homem que consumiu-se sendo ele mesmo que era outro, outros. Pessoa a pessoa que até derreteu a sintaxe para dizer o que tinha dentro de si, e sempre, como o demonstra o uso do tempo presente.

 

Foto - Nourit Melcer Padon

Foto – Nourit Melcer Padon

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