O último heterônimo de Fernando Pessoa

0

Pontes que se criam e conectam-se a partir de uma realidade que só é possível ao abandonar o passado, sem nunca esquecê-lo, como fez o personagem mítico grego Orpheu, que metaforicamente inspirou o movimento modernista português e resvalou em 2014. A regurgitação é essencial. O deslumbre inocente foi o que levou o escritor português André Morgado (27 anos), e o ilustrador brasileiro Alexandre Leoni (26 anos), a lançar na 11ª edição da Fliporto a HQ “A Vida Oculta de Fernando Pessoa”.

O ponto de partida surgiu de uma afirmação ouvida em sala de aula por Morgado, quando um aluno afirmou o quanto é chato ler Pessoa. Numa tentativa de aproximar pedagogicamente os alunos do poeta, a ideia se tornou clara. A busca por um designer adequado através de portfólios visuais na internet conectou a cidade de Guarda, em Portugal, ao Mato Grosso do Sul. Alguns meses de trabalho foram necessários para que numa tarde ensolarada de sexta, em Olinda, os dois se encontrassem pela primeira vez.

A entrada no palco na noite de encerramento da Feira Literária, dois dias após se conhecerem pessoalmente, não poderia ser diferente. Leoni empunhava uma câmera Go Pro na mão para entender o porquê de tanto alvoroço pelo lançamento. Uma banda desenhada (tradução para revista em quadrinhos na língua lusa) concebida por dois jovens que nunca haviam se encontrado. Uma revista concebida a partir de um crowdfunding para arrecadar sete mil reais em dois meses (mas que conseguiu 25 mil). De repente, não se entende como dois jovens com a ideia de ensinar aos jovens uma forma mais fácil a literatura de Fernando Pessoa, pisavam no mesmo palco de consagrados escritores como Mário Prata e Javier Cercas.

Essa é a história de um professor e um ilustrador que na tentativa de aproximar os alunos, reinventou o homem que se reinventava. O modernista português numa revista de 2015 é membro de uma sociedade secreta numa antiga década sombria, e seus heterônimos “chatos” da literatura são seus companheiros de aventura.

O questionamento sobre a prepotência de ensinar Pessoa entre tantos estudiosos de renome só pode ser respondido pelos autores de uma forma: Inconsciência da Juventude. “O livro não é um manual. Não queremos ocupar o lugar de ninguém”, afirmou veementemente Morgado, categorizando que todos os temas são possíveis de serem trabalhados.

Fotos: Olga Wanderley

leoni2

leoni3

 

 

Share.

Deixe seu comentário